on-repairs
Sei que você tem todos os motivos do mundo para me odiar, ignorar e até mesmo, abrir esse texto e fechar na mesma hora, ao perceber quem escreveu. Mas acredite, não fui eu, sou muito orgulhosa pra isso, a verdadeira autora desse texto é a saudade, aquela que insiste todos os dias em bater na minha porta para me perguntar aonde você está. E também me pergunto, aonde você está? Está bem o suficiente para andar por aí sem precisar de alguém para ouvir seus devaneios? Bem o suficiente para dormir bem todas as noites sabendo que tem alguém que te ama e que nunca te esqueceu ao teu lado? Todos erramos e é disso que a humanidade é formada. Eu errei não acreditando no que tinha à dizer pra mim, em não ter confiado na forma com que tentou abrir meus olhos em todos os dias de convivência para mostrar o quão errada eram as minhas escolhas; e o pior de tudo, errei te deixando partir por uma causa tão inútil e por um alguém mais inútil ainda. Errei e assumo todos os erros e você sabe como eu sou, 8 ou 80, fria ou quente, doce ou perversa. Tudo passou, os sentimentos passaram, os momentos passaram, a raiva passou, mas a única coisa que não passou foi o amor que sinto por você, que ainda permanece vivo dentro de mim e sempre vai permanecer, porque, amar não é apenas ouvir e dizer verdades, é arranjar soluções mesmo que a outra pessoa ache que não precise. Tudo que te fiz não foi por mal, se tivesse sido, não estaria aqui agora, da forma que estou, com saudades e te escrevendo esse texto enquanto deveria estar estudando para Psicologia do Consumidor.
“Nós aceitamos o amor que achamos merecer”, por isso te peço, só volte se achar que merece estar comigo, ao meu lado como antes, mesmo depois de eu ter errado com você, mesmo depois de ter sido essa pessoa que fui. Só volte se achar que merece essa pessoa errada que fui e que estou trabalhando para deixar de ser; aqui tem tudo, tem amor, só falta você.
Tickets of Cassie - Em uma carta para alguém.    (via on-repairs)
morbidavel
O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome. O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos. O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina. O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos. Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina. O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água. O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome. O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel. O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso. O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala. O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.
Trecho retirado da poesia “Os três Mal-Amados”, de João Cabral de Melo Neto.  (via morbidavel)
quoteografa
E eu cansei de falar desse efeito que você tem sobre mim. Mas parece inevitável, não me conformo com tal fato. A gente pode passar meses sem trocar uma palavra, quando você aparece de novo é como se nunca tivesse partido. E você sempre volta. Quando eu acho que você se foi de vez, e que a calmaria finalmente tomou conta, você reaparece trazendo contigo esse turbilhão de sentimentos novamente. E isso me incomoda, me deixa intrigada, nauseada, ofegante. Não bastava mexer com meu psicológico, você decidiu abalar meu físico também. E pô, eu não to apaixonada. Tenho certeza disso como sei que 2+2 são 4. E isso me intriga mais ainda, porque se fosse paixão, pelo menos eu conseguiria entender. Seria uma desculpa óbvia até. Mas não, aqui estou tremendo e suando por alguém que nem sequer é minha paixão. Que diabos você tem, garoto? Acho bom me dizer, porque eu já estou beirando a loucura. E eu sei que não posso cair nesse abismo, porque ao invés de me ajudar a sair, é capaz que você se jogue junto. Afinal, digamos e convenhamos, tudo tende a dar errado quando eu to do seu lado. E o pior é que eu não me importo nem um pouco em fazer dar certo.
E ai, vem ser errado comigo?  (via quoteografa)